Memórias Adormecidas


E depois da tempestade vem a bonança, assim dizem os antigos, mas as marcas essas não se saram tão facilmente, não se eliminam da nossa mente como gostaríamos. O que nos choca, nos magoa ou nos marca profundamente, será difícil de cicatrizar completamente. Refiro-me aos incêndios do ano passado, a "tempestade" veio, arrastou tudo e pouco ficou, a não ser os nossos corpos, as nossas mentes fragilizadas, magoadas e chocadas perante toda aquela visão aterrorizante. Devastou tudo em poucas horas e renascemos, sim! Renascemos, fomos obrigados a arregaçar as mangas e a conseguir viver com as marcas difíceis de cicatrizar. Com o medo que se apoderou de nós, como se hoje tivéssemos tudo e amanhã rigorosamente nada. Para quem está de fora, não sabe como é a nossa luta diária, nem eu pensei que tal acontecimento fosse abalar tanto. Deparei-me com o toque da sirene a semana passada e hoje novamente! Aquele toque que nos deixa em alerta, em pleno terror por dentro, só pensando o que pode ser, o que virá dali. É tão desesperante viver com este medo que se apodera de nós, parece que todas as recordações adormecidas despertam e vibram dentro de nós. 

Apesar de termos renascido das cinzas, o verde está a demorar crescer, ele vem lentamente... mas as nossas paisagens continuam muito negras, muito sombrias... é tão triste! Como foi possível chegar ao ponto de perder a maior riqueza que temos nestas redondezas, a flora, a fauna, o ar puro, a beleza verdejante que tantas saudades tenho. Viver no negro, é viver no medo, na tristeza, na perda... é como se tivessem mudado o cenário da nossa historia, que antes acordávamos olhávamos pela janela e sorriamos, agora simplesmente acordamos e vivemos mais um dia... conduzimos e olhamos sempre em frente, porque o resto da paisagem mostram-nos lágrimas derramadas, gritos de desespero e o sentimento de perda. Cortam aos poucos as mazelas deixadas e o sol renasce ao longe, mais vistoso como nunca, porque agora não tem a floresta verdejante a tapar o seu brilho majestoso. Mas bonito era apreciar a natureza no seu esplendor e deixarmo-nos ir pelo sossego, pelo som dos pássaros, pelo ar fresco que fazia com que as árvores dançassem a um ritmo sereno e que transmitia uma paz autentica. Quem sabe deslumbrar os pequenos pormenores da vida, saberá do que estou a escrever ou a transmitir. 

Não perdi ninguém familiar nesta tragédia, mas vivi bem de perto toda a tristeza que muitos passaram e ainda passam, vi e senti de perto aquilo que nunca pensei viver ou sentir.

A vida é sem dúvida uma passagem, bem marcante por sinal!

Comentários

  1. Quem passa por uma situação traumatizante, seja de que natureza for, fica sempre com marcas quer físicas ou mesmo psicológicas... infelizmente nunca se consegue esquecer :(

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  2. Olá Paula, que testemunho tocante e sentido.. Vi na televisão, mas claro ao "vivo" é bem pior. Lamento imenso pelas vidas perdidas. É um luto para a vida, uma luta constante.. Foi sem dúvida uma catástrofe enorme. Deus permita que não se repita. Beijinhos 😘

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  3. O ano passado teve momentos muito duros. A terra da minha mãe está irreconhecível. O incêndio de outubro queimou quase tudo. Entrou na aldeia e nas casas... Entrou na casa dos meus avôs e não a perdemos porque tivemos a sorte de estar os vizinhos na casa ao lado e terem salvo a casa deles e a nossa... É doloroso e ainda hoje não esqueço o cheiro a queimado horas depois de lá chegar após a passagem do incêndio...

    Sónia Carvalho

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